Inserção do jovem no mercado de trabalho precisa ser debatida
26/01/10
Talita Mochiute
“O Brasil vem avançado em propostas de qualificação profissional para jovens, mas ainda tem um longo caminho a percorrer na discussão sobre o emprego oferecido para juventude. O debate sobre trabalho decente ainda é muito incipiente”, comenta a socióloga e assessora da Ação Educativa, Maria Carla Corrochano.
De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicados no livro Juventude e Políticas Sociais no Brasil, lançado na última semana, havia 4,8 milhões de jovens - entre 15 e 29 anos - desempregados em 2007, representando 60,74% do total de desempregados no país – taxa três vezes maior que a dos adultos. O índice de jovens que não trabalhavam, nem estudavam também ficou elevado, em 19,8%.
Comparado com a década passada, a taxa de desemprego juvenil mais que dobrou. Em 1987, para faixa etária de 16 a 20 anos, o índice foi de 7%. Em 2007, alcançou 20%. Na faixa etária de 21 a 29 anos, passou de 5% para 11%, no mesmo período.
Para reverter esse quadro, o país vem investindo em programas com foco na preparação profissional do jovem. “Entretanto, no que se refere a uma redução significativa do desemprego juvenil, é questionável a eficácia das políticas de formação profissional”, escreve o técnico do Ipea, Roberto Gonzalez, no capítulo referente à política de emprego.
Na avaliação do pesquisador do Ipea, o resultado positivo não depende apenas das oportunidades de formação, mas também de que forma as empresas absorverão os novos trabalhadores, se haverá garantia de maior estabilidade e de maiores salários.
Maria Carla Corrochano concorda que é necessário pensar nas condições dos empregos oferecidos à juventude. “Como é o posto a ser ocupado pelo jovem? Se ele entra em um posto precário, é mais difícil depois alcançar um posto melhor. Não deveríamos também pensar em uma jornada menor, uma vez ele que precisa conciliar estudo e trabalho”.
30% dos jovens economicamente ativos no Brasil trabalham mais de 20 horas semanais, o que, muitas vezes, prejudica o desempenho escolar. Foi a constatação do estudo “Trabalho Decente e Juventude”, lançado em julho de 2009 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que analisou a situação dos brasileiros no período de 1992 a 2006.
Segundo a socióloga, a discussão sobre um trabalho decente passa pelos temas da regulamentação da participação do trabalho juvenil, do monitoramento do tipo de posto a ser ocupado pelo jovem e também por repensar a própria escola. “Há muitos cursos profissionalizantes que não dialogam com o universo escolar”, afirma Maria Carla.
Lei de Aprendizagem
“Muitas empresas não conhecem o programa de aprendizagem. Não abrem suas portas para esse tipo de contratação. Ou quando abrem não sabem o que deve fazer com o aprendiz”, comenta o coordenador do Aprendiz Paulista pelo Centro Paula Souza, Celso Gaiote. O projeto do estado de São Paulo busca ampliar a contratação de aprendizes matriculados nos cursos técnicos da instituição que administra as Etecs e Fatecs.
“As empresas são responsáveis por dar continuidade ao processo de formação desses jovens. Devem estar atentas ao plano da escola e propor trabalhos condizentes”, explica Gaiote. Para que não haja deslocamento entre trabalho e formação, o coordenador acredita ser fundamental a figura de um orientador de aprendizagem, responsável pela ponte escola-empresa e pelo acompanhamento do percurso formativo do aprendiz.
Até junho de 2009, havia 151.604 aprendizes contratados em todo país, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A meta do governo é alcançar 800 mil contratos de aprendizagem até 2010. Na publicação, o Ipea ressalta a necessidade de um forte pacto entre empresas, sindicatos e fiscalização do trabalho para alcançar esse objetivo, assegurando qualidade da formação oferecida e a adequação das condições de trabalho.
O Ipea também destaca no livro que a ampliação da faixa etária de 17 para 24 anos não deslocou o público beneficiado pela lei. Mais de 70% dos aprendizes no Brasil tem até 17 anos. “Aparentemente, não cobriu a faixa etária dos 17 aos 24 anos. Essa mudança entrou em vigor em 2006, ainda é muito recente. A resposta não é rápida, mas acho que 30% já é um percentual considerável”, ponderou Gaiote.
Para Maria Carla, vale discutir se a aprendizagem é a melhor alternativa de inclusão de jovem entre 18 e 24 anos no mercado de trabalho, uma vez que muitos já tiveram a oportunidade do primeiro emprego e buscam, agora, uma remuneração maior. Já Gaiote acredita que a aprendizagem é a possibilidade de uma segunda chance para o jovem voltar ao mercado e elevar sua qualificação profissional.
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